Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.
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26.12.06

Lembrança

Categorias : Prosa

(One Nights Dream, Ghosts - Ralph L. Steeds)

Subia o morro empurrado por uma senhora gorda e cinza de olhar melancólico. Caminhava cada passo sem na verdade caminhar, caminhava offline. Praticava uma espécie de budismo moderno que quer afastar pensamentos, não por alguma crença recém-descoberta e reveladora do mundo, mas por uma fadiga que grita, ameaça e expulsa os problemas transeuntes, como uma criança que brinca de cabra-cega tateia o ar em busca de seus provocadores. Sentia a cabeça doendo demais, como se um alfinete cruzasse a nuca, amarrado em suas extremidades por uma bela e ornamentada fita azul com crianças minúsculas nela penduradas e balançando-se. Elas, contentes com os sonhos que não me deixo sonhar, que lanço e que caem desapressadamente, pulam sobre eles antes que atinjam o chão, saltam e muitíssimo perto do fim penduram-se orgulhosas à fita antes de cair. É assim que explicava a dor, que os sonhos largados, de forma oposta ao que imaginava, não alívio, causavam.
Assustado por um motoqueiro que lançava revistas, baixei a guarda e só percebi as consequências desta atitude irresponsável ao olhar pra baixo e ver crianças de joelho ralado à chorar. Apertei o botão de emergência - secretamente escondido abaixo do mamilo esquerdo -, mas não pude fechar as comportas a tempo. Os pensamentos, que haviam rapidamente escalado a bela fita azul - vil, de função agora revelada - já haviam tomado o primeiro nível e ameaçavam adentrar-se mais. Forçavam a porta com troncos feitos de datas de prova e ameaçavam atirar os extratos de banco. Surpreso e desarmado pelo ataque, tive ainda a atenção presa às crianças e quando ainda refletia sobre que atitude tomar, reprimir o ataque ou cuidar das vítimas destes pensamentos malévolos, fui surpreendido pelo fim de um encantamento perfeitamente planejado. As crianças tomavam forma de gnomos e, espetando meus pés com seus pequenos alfinetes, sorriam satisfeitos, agora sem ar de pureza, pelo sucesso de seu disfarce. Enquanto me desesperava pela terrível descoberta, fui informado por um mensageiro que o segundo nível havia sido tomado e que pouco restava a fazer. Tranquei-me em minha cabine e escolhi afundar com meu navio. Drama, drama, diziam meus novos comandantes. Sempre a mesma ladainha épica. Eu sabia que não haveria náufrago algum. Nada que não houvéssemos já feito antes. Quiçá, desta vez, matéria para se sonhar de noite.
Ansiosos como animais de zoológico, os pensamentos entravam em suas cabines e apertavam seus cintos. Aos poucos o gás verde que entrava iniciava seu efeito... Suas imagens começavam a brilhar e sua aparência ficava embaçada, como se estivessem transparentes. A luz tornou-se tão forte que a visão do que acontecido ficou impossível. A última impressão foi de um vago entrelaçamento destes pensamentos. Quando o processo terminou veio o silêncio. Como a TV de madrugada quando termina a programação, ou quando um monge entre em alpha, ou quando alguém conta uma piada ruim, ou quando alguém faz uma pergunta difícil. Silêncio grande que faz sumir o barulho da moto e de seu cavaleiro entregador de jornais. A luz baixava e, perdido, percebi que me encontrava num mundo branco de cinco dimensões. A primeira coisa que vi, e não entendi (visto que era um mundo de cinco dimensões), foi um homem negro de casaco negro e óculos estranho que disse:
- Alô! Muito tempo! - sua voz suava estranha. Alguma provável influência da dimensão extra. - De qualquer forma, eis o achado escrito:
"O silêncio que vem da caverna cala a todos. A cidade que andava agitada, dos homens de longos chapéus negros e das senhoras de véus e cruzes, cala seu insandecido gritar, assustada. Os monólogos a dois se calam. As carruagens que correm para não-lugar param. Os cachorros já esperavam e continuam sentandos ouvindo atentos ao grande silencio que ruge da caverna.
O leão que sai do escuro anda, rebolado de deusa egípcia esquecida, juba de glam rock... Olha tudo, vira os olhos e ri:
- Devem estar brincando.
Dá uma cuspida e volta para a caverna. O silêncio se cala e o barulho na cidade volta. Os cachorros bocejam e os homens voltam a vibrar".
Rodava tudo e vi-me num enfumaçado mundo, este com número correto de dimensões, conhecido. A rua continuava lá, talvez alguns graus deslocada, mas ela, sem dúvida a mesma rua que eu subia. Havia um vulto, algo do tamanho de um centauro causando barulhos que eu via ao invés de ouvir. Sentia fumaça que a cada barulho chacoalhava e criava pequenas fissura que deixavam escapar luz. A luz se enrolava e criava parábolas que, para minha surpresa, me capturavam. Encantado pelos movimentos, não esbocei reação enquanto tomavam meu corpo e tinham como ponto final meu rosto. Fui possuído pelas luzes e extasiado retomei o controle. Fim da rebelião.

O barulho de portão enferrujado que vinha dos freios da moto do entregador de revistas me lembrou anos atrás quando voltava do curso de inglês e entrava no quintal de casa pedalando minha bicicleta. Ao frear causava este barulho de portão enferrujado. Feitiçaria de algum deus brincalhão de pegar um som e joga-lo no futuro.

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