Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.
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02.04.07

durante

Categorias : Prosa
daí vem toda essa dúvida sobre esse individualismo que eu venho dizendo, sabe. Porque a gente na verdade não sabe de nada, né. Outro dia, por exemplo, eu dei lugar para uma senhora no trem e me perguntei se era por educação, por obrigação moral, cívica, ou se era para poder parar de pensar no assunto e voltar para a leitura.
Engraçado termos tocado nesse assunto de trem porque outro dia tive de permanecer umas duas horas sozinho. Sozinho, no trem cheio de gente. (Não me entenda mal, não vou começar com um discurso sobre a nossa solidão na modernidade, de maneira alguma.) Estava naqueles dias em que não me aguentava, fica essa voz na nossa cabeça, aliás, é como naqueles dias em que a gente não aguenta ouvir a própria voz, sabe? E é terrível, porque a gente é nosso próprio amigo chato. Daí não tem como mandar calar porque acabamos nos magoando, ou não tem como calarmos por pudor - pois com certeza sabemos que estamos incomodando -, com pena do pobre rapaz a nos ouvir porque falta calma ou paz para calar. É como bater os dedos, roer unhas ou ficar balançando a perna (e como ririam os cachorros se nos vissem assim, imagina? nós que os reprimimos tanto por suas caudas sinceras), não se saca que está fazendo, ou se saca não liga, ou, pior, se saca, liga, mas tem que continuar, como quem bebe. Daí o que fazer? É ser torturado pelas duas horas e sorrir de sufoco em ver alguém desinteressante. E a este alguém saímos da companhia do chato, que na verdade sou eu mesmo. Daí a estranheza em se considerar a si próprio outra pessoa. Porque, qual o limite da individualidade, não é? Passamos essas duas horas sofrendo com esse incômodo - com um terceiro - e quando chegamos num terceiro felizes de largar o primeiro, voltamos a unidade - o incomodante e o incomodado - para ser, e quem sabe incomodar esse novo terceiro. Sobre estes limites sabe? Já tenho tantas experiências, tantas trocas, tantos exercícios de paciência lidando com este terceiro (mala, temos de concordar) que sou eu, para que mais? Mas esta é uma das pontas do problema. Porque a gente também é humano e uma hora a natureza chama. E daí, filhão? Como é que anda a mulherada? Não anda, a gente responde, e acaba tendo de ouvir a chatice por mais duas horas. Mas e o outro, penso sem o incomodante. Porque anda cada vez mais complicado conviver, se importar, sociedade. Sociedade é o problema, porque eu nunca vi a Sociedade andando na rua, nunca parei para falar com ela. Estas coisas abstratas são importantes, reconheço, mas dificultam quando a gente quer tirar alguma coisa de verdade delas. Daí me vem a cabeça esta coisa do homem como "ser social". É uma evolução, não é, está pergunta? A gente pensa no pobre do Hamlet que pára no "ser". E olha, pensando bem, eu também paro no ser. Acho um absurdo existir. E não deveria ser? Penso num início para as coisas e, com certeza, ele é vazio, parado e mudo. Como chegamos aqui? Não é um absurdo? Mas estas perguntas não devem existir, não antes do Doutorado. Estava falando sobre o "ser social". De ter amigos, de ter namoradas, de ter família. Todo mundo parece bem desinteressante. Bastantíssimo desinteressante, desinteressante a ponto de voltar-se para dentro. Mas daí a gente pensa no capitalismo, no que leva a tudo isso, daí a gente pensa, e daí, né? Posso entender a dor de cabeça e ainda sim ela dói. Aspirina? Por favor, nem toque neste assunto que me dá calafrios,
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