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Obs: Rascunho.
DESERTOS (primeiro fragmento)
I.
o bardo de barbas ralas
caminha cantando aos homens
sem luz de canção as trovas
no Livro do Povo é posto
uma anti-oração sem tinta
pautada de som sagrado
corre a música
dança a plástica
tempo fica
modifica
a história corre em busca do homem
o tempo langueia
e corre o homem mudo
II.
e eis que o bardo
coreografando de improviso
entre saltos longos e espacates
vibrando junto ao vento
busca o oásis deste deserto
cada lençol de areia
que ergue seu encanto
desnua mais o rosto
da virgem sereia
exótica e exuberante esperança
o pó lançado ao lado
pode por certo mostrar morada
não contém a célula de silício em si todo o deserto?
há de haver morada na areia
corre e canta o aedo
balançando-se em galhos
e brincando em poças
(se existissem)
deixando levar seu lenço o vento
para veloz ir buscá-lo
nas paredes de barro
e teto de palha
busca o maestro
sua fundamental pedra
sua derradeira casa
III.
entre dunas e rios ásperos
correm os furacões sentinelas
esterilizando o pó
sempre buscando a vida
o tocador assobia baixinho
tentando encantar os ventos
em busca de casulo
com um chapéu encharcado
a barba cheia de areia
o homem cava um abrigo
nas mantas do grande deserto
entre os papagaios voantes
vê o cantor esperança
de avançar caminhante
há no deserto algo de novo
que não areia e miragem
IV.
após treze anos de caminho
de contenda contra os ventos
sílices gigantes rodopiantes
surge cansado viola as costas
e pandeiro à mão cantando as cobras
nosso arauto sem pousar
as paredes do infinito
só fizeram ferver as esperanças
sem permitir ganchos de redes
às costas fatigadas
o vítreo carpete de pão assava
as massas dos pés no errante
sem bacia de prata para o banho
o calor cria desaconchego
aconchego apenas ao longe
na nuvem de calor enxame
de miríficas belezas calor
há no homem mais que viola
e vibrar de ofídios pandeiros
sua bandana encarnada e chapéu
de couro moreno de brinco dourado
a língua comprida e tocar o queixo
e dançante e lânguida e comprida
a lançar aos céus pragas e acusações
ousando
romper o lacre da criação
o deserto seco como giz
imaculado de fluídos desde a origem
sofre a ira do portador da voz
e geme aos golpes do céu
as cargas de águas descentes
como carruagens guiadas por sílfides
a competir num coliseu latino
preenchem cada vão de areia
tocando a funda cova do réptil
os ventos tombam ante a força
do insaciável e frio aqüífero
os bandos eólicos tremem e choram
doloridos ante os dardos de água
a caçar ninhadas de tufões
as primeiras gotas derretiam e anuviavam-se
ante a majestosa defesa de calor
juntavam-se depois pacientes e forçavam
carregadas de cavalaria e plúmbeas armas
a entrada nos fortes de areia
fazendo assalto às donzelas de vidro
as caldeiras desérticas movidas
desde a grande criação verbal
nas blasfêmias se intimida
e morre... resfriam-se as areias
a escalada encantada das águas
transformou o pó em movimento
as palavras guardadas e então ditas
revelaram o segredo do plano seco
e deu-se seu fim
o cantor faiscava água pelos olhos
maldições como abelhas de sua boca colméia
apenas com as águas nos joelhos úmido
parou o recital e olhou sua criação
mudou
criado por Tomaz Amorim
19:32:21