Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.
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23.12.06

Atlas ou Uma tentativa de ilustração

Categorias : Prosa
Atlas
(Atlas - Teodoru Badiu)

Ao meio de uma larga rua de cascalhos e terra, numa tarde, um jovem fatigado parou. A leve garoa alimentava a lascividade da lama que aliciava suas botas. Longe encontrava-se um leão. Porte majestoso, seu pêlo brilhava como ouro egípcio recém-descoberto, ao primeiro gole de Sol. Uma aura, talvez calor ou talvez nobreza, erguia-se do corpo leonino exalando vapor em espirais. A oeste, uma senhora de roupas largas carregava na mão direita um báculo, e na esquerda um ábaco, enquanto refletia contemplando o céu.
A lama borbulhante iniciou o movimento de deglutição das botas do rapaz que terminaria tendo couro cabeludo de sobremesa. Seria, no entanto, rala sobremesa, pois ralos eram seus cabelos. Uma fina penugem negra, apenas, dava abrigo aos pensamentos. Seus olhos, sombras fugidías num espelho, não mostravam orbe ou cílios ou esmeráldea pupila. Carregavam em si segredo e prometiam morte a qualquer que ousasse fixar os olhos em seu interior. Uma visão de relance, no entanto, aliviava e dava promessa de salvação.
De corpo sem proporção e incomensuravelmente belo, causaria estranhamento a ocasional observador, o desandro jovem. Tinha pernas reduzidas para o sustento do torso. A natureza oprimia e obrigava, já há décadas de outonos e primaveras, uma criança a carregar um adulto. Maior deformação era, no entanto, a estatura dos ombros. Parecia a cabeça querer escapar do tronco, como um gigante cinzento que pisasse com os pés, um sobre cada ombro do rapaz, e esticasse seu pescoço dia a dia. Dois palmos de osso e pele, ofídio, erguiam-se donde deviam tomar repouso.
Sobre a vertical duplicidade das costas repousava o disco. O que o gigante carrega contém em si um jovem de cabelos ralos que canta e grita e chora por sua mãe, como a queimar em eterno, enquanto carrega, temendo, miserável e desesperadamente, derrubar uma senhora de largos vestidos, um leão que a tudo observa e um gigante firmador do plano.
Se a ação do gigante em carregar o mundo é nobre, não se discute. A lama engole a peça única de beleza além da compreensão que é o rapaz.
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