Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.

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Terra Blog

16.12.07

Puta chinesa

categorias: Poesia

(retirada daqui)

rola esvaziada uma garrafa de vinho
sobre meu tapete de linho e manchas vermelhas
distorce em verde minhas poucas luzes
centelhas de lâmpadas fluerescentes

derramada entre o tapete e o mármore frio
está minha prostituta oriental, adormecida

-Se fosse uma estação do ano seria a primavera florescida!
eu diria num bar

se inspiro seu cabelo, polvilhado de diamantezinhos de suor, cheiro e ouço todas as vozes
estridentes de sua língua natal, seu olhar no menino fero de sete anos que apanha no chão
uma bituca e fuma, o cheiro de esperma de homens e homens, sua perspectiva
de três cigarros, um pingado e uma carreira

jazz fumacento, trago de whisky e charuto
mão suja de cinzas
marcas na mesa branca
no puxador da geladeira, no alvo vibrador

minha mão tem cinzas e minha garganta é calejada
sujo os bueiros, as ruas, as calçadas, as igrejas
os pequenos puleiros de crianças, dos herdeiros

minha mão é o globo cinza e é com ela que pulverizo a puta chinesa
meu punho profundo
cinzas em sua flor vermelha, meu bem

07.12.07

Hart Crane

categorias: Tradução

Seguem algumas das traduções que apresentei como trabalho final numa disciplina de tradução literária. Ficam os agradecimentos ao Leo e ao Andre, que deram sugestões sobre o texto, e ao sempre paciente Eric, por confiar.

 

(retirada daqui)


Black Tambourine

The interests of a black man in a cellar
Mark tardy judgment on the world's closed door.
Gnats toss in the shadow of a bottle,
And a roach spans a crevice in the floor.

Aesop, driven to pondering, found
Heaven with the tortoise and the hare;
Fox brush and sow ear top his grave
And mingling incantations on the air.

The black man, forlorn in the cellar,
Wanders in some mid-kingdom, dark, that lies,
Between his tambourine, stuck on the wall,
And, in Africa, a carcass quick with flies.


Tamborim Negro

As atenções de um negro num porão marcam
tarde o juízo na porta do mundo fechada.
Mosquitos vagam na sombra de uma garrafa,
passa no chão uma barata em caminhada.

Esôpo, guiado pela ponderação,
pôde com a tartaruga e a lebre ao Céu chegar;
Rabo e couro de lobo e porca cobrem sua cova
e encantamentos misturados pelo ar.

O homem negro, miserável no porão,
Vaga em certas terras-do-meio que estão, foscas,
Entre seu tamborim, pregado na parede,
E, n'África, uma carcassa viva de moscas.

(retirada daqui)

 

Voyages I

Above the fresh ruffles of the surf
Bright striped urchins flay each other with sand.
They have contrived a conquest for shell shucks,
And their fingers crumble fragments of baked weed
Gaily digging and scattering.

And in answer to their treble interjections
The sun beats lightning on the waves,
The waves fold thunder on the sand;
And could they hear me I would tell them:

O brilliant kids, frisk with your dog,
Fondle your shells and sticks, bleached
By time and the elements; but there is a line
You must not cross nor ever trust beyond it
Spry cordage of your bodies to caresses
Too lichen-faithful from too wide a breast.
The bottom of the sea is cruel.


Viagens I

Sobre o fresco rufar das ondas
eriçadas crianças esfolam-se com areia.
Planejaram uma conquista às cascas de conchas,
E seus dedos esfarelam pedaços de algas cozidas

Alegremente cavando e lançando.

E em resposta às suas agudas interjeições
O sol bate com relâmpagos nas ondas,
As ondas encerram trovão na areia;
E pudéssem elas me ouvir eu lhes diria:

Ó crianças resplandecentes, brinquem com seu cachorro,
Acariciem suas conchas e varetas, embranquecidas
pelo tempo e pelos elementos; mas há uma linha
que vocês não devem cruzar nem nunca nela confiar demais
Cordame ágil dos seus corpos para acariciar
Muito líquen-fiel a um peito de distância.
O fundo do mar é cruel.

01.12.07

Poética

categorias: Poesia

minha poesia é mito esclarecido

os volumes cinzentos, rufosos de risos,
que invoco não nublam a natureza:
são verdade

minha ponte de luz,
das cores do mundo
até meus olhos mágicos.

15.11.07

Testamento para um Fim do Mundo

categorias: Poesia

(retirada daqui)

Eu deveria tatuar "Kafka" no lombo.
Caminhar pelas cidades - imediatamente após a trombeta do Anjo final - e me perder em seus currais.
Abandonar a distorção nos espelhos dos meus olhos,
minhas cores fracas.
Aceitar a impotência de libertação
(IMPOSSÍVEL!)
e chorar assistindo, com o corpo estendido, ao cativeiro das Yaras nos livros e memórias envelhecidas.

Eu te amo, minha Lúcia,
Assim é melhor.

05.11.07

Mímese

categorias: Poesia

(retirada daqui)


estar flor
ventre estendido do exterior ao íntimo
Seiva!
vida linfática que me escorre adentro,
desafiante física,
animante!

estar não em cravos e pétalas
mas orvalhos, ervas e dentes.
não só da terra me sustentar,
também sustentar sementes da terra,
e nela ser:
simbiose bela
mãe em que me faço ela
filha-flor primavera.

roça minhas pétalas o lençol de veludo vento
e furo-lhe com meus espinhos... desfio as brisas
ou deixo a terra arear-se em meus poros,
respiradouro telúrico e semeador,
pois urge em mim o prazer único
do toque voluptuoso das abelhas,
pólen-gozo.

contorção mimética aos feitiços do Sol
da aurora
e enfim desfaleço,
puta sincera feliz e enrubrada
sem lágrimas de bordel atordoadas,
sincera como fogos no céu.