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(Edgar Degas - Dancer with Bouquet)
Uma moça de olhos verdes me olha e me pergunto se pensa sobre mim. Poderia, é claro, estar pensando em coisas da vida e ter posto os olhos, desfocados, para descansar. (Mesmo isto me animaria um pouco, pois só repousamos no que é minimamente agradável.)
Coçar a barba ou ajeitar o cabelo me parecem igualmente manhas de flerter e ações banais. Estarmos sentados quase de frente um ao outro, é claro, favorece a tensão. Me parece que o fundamental do flerte é justamente este manter-se em não declarado. É a bela arte de eletrizar o ar sem chocar. Vêem-se, olham-se (um de cada vez, é claro) e dão a entender algo mais. E é o flerte justamente esta fina forma de dar a entender este fugidio algo.
Nos raros casos em que meus flertes tornaram-se algo mais (raros pois talvez o fim da magia me parecesse deveras doloroso para trocá-la por alguma determinação mais realista: jogos de caça e caçador, de corte), ficava-me sempre a vontade reprimida de pedir à outra que contasse seu lado da história. Neste belo ballet, delicado como quadro ainda fresco, em que sem dúvida dançam dois - ballet de gestos, olhares e às vezes palavras desajeitadas - não seria a mim, amante tão deliciado dos simples acontecimentos, dos nós mágicos da vida, de instigante curiosidade a visão do outro deste espetáculo? Não ia querer saber desta, que então se quer tanto, as impressões causadas, os temores sofridos, as medidas exatas da aceleração do pulso e o leve ruborizar que mesmo eu então não percebi?
Penso nesta moça de agora e sinto que gostaria de compartilhar com ela os frutos colhidos nestes meus pequenos olhares. De enxergar as frutas por ela colhidas. Saber se está pensa no mesmo que eu.

criado por Tomaz Amorim
18:36:50