Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2007

26.08.07

Seriar verde

categorias: Poesia

(imagem retirada daqui)

fraco das infâncias e juventudes
do lamento dos elogios
pais e mulheres
não há em mim alento de ser
nada

mesmo este poema-carpir
de sedas de versos vestido
não passa de engano

o peso e a delicadeza cristalina dos meus pés
ordenam que beba só a pura bebida
nascida na fonte da verdade que é meu peito
sobrevivo às sombras nuvens do mundo

sobre o sustentáculo da verdade

emudeço hoje minha voz insincera
mostra-se-me intangível a verdade
meus sentidos de nervos torpes nauseiam
o carrocel de três dimensões me abate o corpo
tudo o suspeito faz instável aleija e desanda
faz púrpura o caminho sem erva e terra

fico de voz sem ritmo
de cores opacas
racham o barro meus dedos duros
e lançam longe a cruz que não repousa no ventre

o prisma do mundo faz
toque em pétala de rosa ter gosto azul na boca
obriga à noite me exilar-
fuga falsa como o cicatrizar de Prometeu-
para sentir que um anjo apiedar-se-ia
que me acolheriam leões e pássaros e a mim vestiriam e por mim cantariam
até que eu pudésse cantar

então cantaria tão verde quanto o verter da linfa no pulso dos galhos, a música dos carvalhos na mata esquecida, o mel dos favos de esmeralda, o gosto do alho e do manjericão, o hálito dos cavalos índios, os olhos da jovem colhedora de olivas, as libações das sereias aos monstros do mar, o útero da Terra

VERDE!

tão verde quanto pudéssem meus olhos
e quando chegassem ao limite os arrancaria
e minha alma verde tornaria o mundo êxtase

hoje no entanto pairo branco
olho ao abismo que é o mundo
seu fim que não tem puro canto dos infernos
pois o inferno está mudo
e onde nem mais o silêncio canta pois falta ar

há nisto minha perdida verdade?
pode a idade verde respirar com o resto de ar
que só arde?
sobra a desgraçada garganta de tártaro
que busca antes de água da mata
ar para cantar

14.08.07

Flerte

categorias: Prosa


(Edgar Degas - Dancer with Bouquet)


Uma moça de olhos verdes me olha e me pergunto se pensa sobre mim. Poderia, é claro, estar pensando em coisas da vida e ter posto os olhos, desfocados, para descansar. (Mesmo isto me animaria um pouco, pois só repousamos no que é minimamente agradável.)
Coçar a barba ou ajeitar o cabelo me parecem igualmente manhas de flerter e ações banais. Estarmos sentados quase de frente um ao outro, é claro, favorece a tensão. Me parece que o fundamental do flerte é justamente este manter-se em não declarado. É a bela arte de eletrizar o ar sem chocar. Vêem-se, olham-se (um de cada vez, é claro) e dão a entender algo mais. E é o flerte justamente esta fina forma de dar a entender este fugidio algo.
Nos raros casos em que meus flertes tornaram-se algo mais (raros pois talvez o fim da magia me parecesse deveras doloroso para trocá-la por alguma determinação mais realista: jogos de caça e caçador, de corte), ficava-me sempre a vontade reprimida de pedir à outra que contasse seu lado da história. Neste belo ballet, delicado como quadro ainda fresco, em que sem dúvida dançam dois - ballet de gestos, olhares e às vezes palavras desajeitadas - não seria a mim, amante tão deliciado dos simples acontecimentos, dos nós mágicos da vida, de instigante curiosidade a visão do outro deste espetáculo? Não ia querer saber desta, que então se quer tanto, as impressões causadas, os temores sofridos, as medidas exatas da aceleração do pulso e o leve ruborizar que mesmo eu então não percebi?
Penso nesta moça de agora e sinto que gostaria de compartilhar com ela os frutos colhidos nestes meus pequenos olhares. De enxergar as frutas por ela colhidas. Saber se está pensa no mesmo que eu.