Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.

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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2007

16.04.07

Passo

categorias: Prosa
(retirado daqui)

na verdade, o maior esforço veio de decidir andar, não do primeiro passo. a lama seduzia as botas como uma deusa de oito braços a dançar e sibilar. sentia seu toque como ao interior de um útero que acalentava e protegia.
sem motivo para fugir dali.
como quando se está num barco que afunda, a lama elevava, e se a hesitação fosse mais duradoura, não deixaria apenas as botas para trás, mas parte da roupa. para que andar?, para onde?, eram perguntas que não buscavam resposta. sua mera concepção seria, sem dúvida, ironia de algum deus zombeteiro. quando se olha ao redor e vê-se num deserto de lama, de morros pastéis infindáveis, de céu denso da cor-chumbo, não há sentido em questionar a direção. um passo qualquer, todo passo, leva a um anti-passo. pisa-se no deserto e a pegada também é marcada na alma. o som úmido e impactante da lama na bota faz vibrar todo o espírito. torna o deserto numa grande folha marrom e cinza em que escreve e faz aquarelas a alma do homem, isolado. um novo passo só pode levar a uma nova instância de si mesmo, por isso não há questão de caminho. é da suposição, e na fé incomensurável e impossível de descrição, que vem a decisão. é da qualidade da tinta de aquarelar e da disposição para escrever, neste novo estado da alma configurado com o passo, que se trata a questão. há cores criativas o bastante para umedecer a banalidade do marrom?
a deusa deixa de sibilar e gralha furiosa como louca harpia. erguem-se os ombros, o mundo inteiro geme e se retorce como metal. de cabeça baixa, estica a perna curta e dá um passo. caem mil trovões sobre as terras castanhas. a alma, num movimento elegante, gira um braço e lança o primeiro traço de tinta na lama.

09.04.07

Canção do amor imprevisto

categorias: Outros autores


(foto retirada daqui)

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana

02.04.07

durante

categorias: Prosa
daí vem toda essa dúvida sobre esse individualismo que eu venho dizendo, sabe. Porque a gente na verdade não sabe de nada, né. Outro dia, por exemplo, eu dei lugar para uma senhora no trem e me perguntei se era por educação, por obrigação moral, cívica, ou se era para poder parar de pensar no assunto e voltar para a leitura.
Engraçado termos tocado nesse assunto de trem porque outro dia tive de permanecer umas duas horas sozinho. Sozinho, no trem cheio de gente. (Não me entenda mal, não vou começar com um discurso sobre a nossa solidão na modernidade, de maneira alguma.) Estava naqueles dias em que não me aguentava, fica essa voz na nossa cabeça, aliás, é como naqueles dias em que a gente não aguenta ouvir a própria voz, sabe? E é terrível, porque a gente é nosso próprio amigo chato. Daí não tem como mandar calar porque acabamos nos magoando, ou não tem como calarmos por pudor - pois com certeza sabemos que estamos incomodando -, com pena do pobre rapaz a nos ouvir porque falta calma ou paz para calar. É como bater os dedos, roer unhas ou ficar balançando a perna (e como ririam os cachorros se nos vissem assim, imagina? nós que os reprimimos tanto por suas caudas sinceras), não se saca que está fazendo, ou se saca não liga, ou, pior, se saca, liga, mas tem que continuar, como quem bebe. Daí o que fazer? É ser torturado pelas duas horas e sorrir de sufoco em ver alguém desinteressante. E a este alguém saímos da companhia do chato, que na verdade sou eu mesmo. Daí a estranheza em se considerar a si próprio outra pessoa. Porque, qual o limite da individualidade, não é? Passamos essas duas horas sofrendo com esse incômodo - com um terceiro - e quando chegamos num terceiro felizes de largar o primeiro, voltamos a unidade - o incomodante e o incomodado - para ser, e quem sabe incomodar esse novo terceiro. Sobre estes limites sabe? Já tenho tantas experiências, tantas trocas, tantos exercícios de paciência lidando com este terceiro (mala, temos de concordar) que sou eu, para que mais? Mas esta é uma das pontas do problema. Porque a gente também é humano e uma hora a natureza chama. E daí, filhão? Como é que anda a mulherada? Não anda, a gente responde, e acaba tendo de ouvir a chatice por mais duas horas. Mas e o outro, penso sem o incomodante. Porque anda cada vez mais complicado conviver, se importar, sociedade. Sociedade é o problema, porque eu nunca vi a Sociedade andando na rua, nunca parei para falar com ela. Estas coisas abstratas são importantes, reconheço, mas dificultam quando a gente quer tirar alguma coisa de verdade delas. Daí me vem a cabeça esta coisa do homem como "ser social". É uma evolução, não é, está pergunta? A gente pensa no pobre do Hamlet que pára no "ser". E olha, pensando bem, eu também paro no ser. Acho um absurdo existir. E não deveria ser? Penso num início para as coisas e, com certeza, ele é vazio, parado e mudo. Como chegamos aqui? Não é um absurdo? Mas estas perguntas não devem existir, não antes do Doutorado. Estava falando sobre o "ser social". De ter amigos, de ter namoradas, de ter família. Todo mundo parece bem desinteressante. Bastantíssimo desinteressante, desinteressante a ponto de voltar-se para dentro. Mas daí a gente pensa no capitalismo, no que leva a tudo isso, daí a gente pensa, e daí, né? Posso entender a dor de cabeça e ainda sim ela dói. Aspirina? Por favor, nem toque neste assunto que me dá calafrios,