
*Rascunho
Querida Elisa,
Tenho certeza de suas dores e de como sua cabeça quer explodir e seu estômago ralha com você quando lê estas cartas, também sei que esses efeitos vão por semanas e que se em algum momento ameaçam abrandar chega uma nova carta para manter aberta a ferida. Mas Elisa, espero que entenda, e confie em mim como sempre confiou, o porquê de eu continuar escrevendo. Quando se termina um grande espetáculo, além da nostalgia ficam os destroços a serem varridos. No fim de um grande ritual, e a magia que criamos tem a força deste mundo débil, os espíritos precisam ser excomungados de volta para seus túmulos no além. Elisa, o grande romance, único que este mundo já viu, o nosso, precisa de um fim e é por isso que essas cartas existem.
Ah Elisa, não importa o que você diga, eu não posso ficar aqui em cada ontem lembrado, ouvir nossa música tocar inteira no rádio, olhar a lua e continuar pensando em você. Se o tempo correu, continuar agindo da mesma maneira que agia, sorrir com os mesmos lábios, é de uma insensatez suicida. A mesma de um palhaço que conta piadas num picadeiro para uma platéia que já se foi a tempos, num circo de luzes que já se apagaram. Elisa, por favor, esqueça. Se vivemos antes, se fomos vivos, por que não continuar a viver? E se eu te pedisse para fazer de conta que nunca precisamos de nada além do que já temos? Nada além, Elisa, do que esses olhos que abraçam todo o mundo e que, nessa atmosfera negra, é a única fonte de luz para o mundo. Você não precisa de nada mais do que esta alegria. Nada mais, Elisa, de mais nada.
Minha querida, não importa o que você faça. Não há mudança que você possa fazer pois o problema não é você. O milagre que você pede não é possível porque é para um ateu. Estar contigo da maneira com que sou seria insultar o mundo. Tomar sua jóia mais preciosa e guardá-la para um único e egoísta. Nem eu nem impuro algum pode, sem queimar as retinas e a alma, lavar o rosto com a água mais pura do deserto. Eu sou um boneco bizarro de chumbo montado em suas asas, doce fênix. E todos precisam de sua luz e da sua vida. Não há para mim uma escolha, e não é de bondade que te liberto, mas de medo. Seu eu tivesse ainda uma fagulha de força para lutar por você não duvide de que eu o faria. Se eu pudesse aqui agora sentado queimar e com o calor dos meus restos iluminar essa distância que nos separa eu o faria sem hesitar. Mas não posso, não consigo. Se eu pudesse entrar em você, mas não posso. Malditos são proibidos nos santuários e a sua luz me é muito forte. Se pudesse te tocar e fazer seus olhos pegarem fogo como eles deveriam! Mas não posso Elisa, sou das sombras a menor e sua luz é pura. Minha escuridão me engole... Se pudesse fazer seus olhos queimarem, se pudesse! Só assim cederia desse sentido de sentir este algo além que se esconde de você e eu.
Você entende minha querida Elisa, minha perdida Elisa? Mesmo com esses olhares dolorosos e corações despedaçados, com todas as preces que suas mãos podem fazer e mesmo com o fim dos seus joelhos em orações, há mundos inteiros nos separando. E será sempre assim. Eu pego tudo o que você me joga... Você se lança inteira em versos e sorrisos e almas e eu jogo tudo fora. Com a displicência de uma mulher que lança migalhas da toalha da mesa aos cães, eu jogo tudo fora. Como se lançam rostos aos céus ou como braços que se abraçam... Lanço braços em sua volta e os jogos fora, depois, com todo o resto.
Ontem eu parei e te fitei de olhos abertos, como braços numa cruz. O rosto que vi me olhou de volta do jeito que eu queria. E como seria de outro jeito minha doce Elisa? O que mais esperar? De mim sei o que esperar. Eu não consigo segurar minhas lágrimos do jeito que você consegue. Sua ferida aberta reluz e é insensível a todo o resto que não sua própria dor. A mim, no entanto, uma brisa é suficiente para despedaçar a carne. Entende Elisa? Sua força me envergonha, e é tamanha e tão pura que em reflexo me dá forças para escrever estas cartas. Para dizer que não confie e não olhe para mim.
Elisa, acredite que eu nunca quis isso. O labirinto me é tamanho e tão escuro que achei que desta vez, ofuscado por você talvez, sentindo em mim um puco da sua força, manteria todas as minhas promessas. Eu achei que você era a garota com a qual eu sempre sonhei. Que a silhueta das minhas madrugadas, nebulosa com a luz da lua, era você. Mas é claro que não era. Nem meu sonho de mais esperança seria o bastante para descrever você. São os mundos que nos separam. Seu lugar é no alto, meus sonhos pequenos e pesados só te rebaixam e isso me destrói. Não posso, e saiba, pobre Elisa, que não é por você, mas por mim que digo isso. Não posso me suportar fazendo isso com você. O vulto com quem eu sonhava correu e as promessas foram quebradas e o faz de contas fugiu.
Então Elisa, não importa o que você diga. Não posso olhar todos esses ontens, não posso buscar páginas antigas no meu diário e simplesmente copiá-las num novo livro. Aquela tinta era mágica e se esvaiu com o tempo e com minhas forças. Essas cartas escritas com tinta, pobre e negra, são minha maneira de viver de uma nova maneira. Sem os cantos rituais, sem as runas com que seus olhos me abençoavam. Estou tentando Elisa e o que peço é que esqueça. Se tudo se foi, vá também e seja feliz. Faça crer e creia que não precisa de nada daquilo, que todo o hoje basta. Que hoje basta Elisa, pois para você ele sempre bastará.
Não minto e digo que é fácil. Não é, nem nunca será. Porque correr numa leve manhã em volta do lago é algo que um homem preso a sua cama nunca esquecerá. Sua esperança, os dedos de um artesão num vaso, fica em mim e me dá planos mirabulosos, me enche de altares para que eu pule e caia. E eu caio e sempre caio Elisa. Caio porque sempre que tento parar essa velha ampulheta e fazer voltar seu sorriso, os vestidos floridos, seus dedos pálidos e pequenos, quando apanho um objeto nesse vento do passado ele se desmonta em areia e vasa pelos meus dedos que tentam apanhá-lo. E meu desespero que tenta segurar toda a areia só faz destruir tudo mais rapidamente. E não há mais nada que eu possa fazer porque já se foi e o que me resta é sentar e chorar nessa areia derramada. E não há mais nada, perdida Elisa, que eu possa fazer. Sobre mim, sobre você (pobre de mim fazer algo por você). E não há mais nada. Nada.