Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.

Folha Branca

Blog com textos literários e traduções de Tomaz Amorim.
<<  2006  >>
Jan Fev Mar Abr
Mai Jun Jul Ago
Set Out Nov Dez
Buscar
Terra Blog

Arquivo de: 2006

31.12.06

Fragmento de Carta

categorias: Outros autores

(Alfred Sisley - Neve a Louveciennes)

Não sou desleal Milena (embora eu tenha a impressão de que minha caligrafia costumava ser mais clara, é isso?) Sou tao sincero quanto o "regulamento da prisão" permite, e isso é muito, e o "regulamento da prisão" está se tornando cada vez menos rigoroso. Mas adaptar-me a ele eu não posso, a adaptação é impossível. Tenho uma peculiaridade que em essência não me distingue muito de meus conhecidos, mas muito em grau. Ambos conhecemos, afinal, muitos exemplos típicos de judeus orientais, eu sou tanto quanto eu saiba, o mais típico judeu oriental entre todos eles. Isto significa, expresso com exagero, que não tenho um segundo de calma, nada me é concedido, tudo tem de ser ganho, não apenas o presente e o futuro, mas também o passado - algo que talvez todo ser humano herdou, também isso precisa ser ganho e talvez seja o trabalho mais árduo. Quando a Terra gira para a direita - nem sei se ela faz isso - eu precisaria me virar para a esquerda para compensar o passado. Mas como está não tenho a menor partícula de força para essas obrigações, não posso carregar o mundo nos ombros, mal posso agüentar meu sobretudo de inverno sobre eles. Esta falta de força, por acaso, não é necessariamente coisa a ser deplorada; que força seria suficiente para essas tarefas! Qualquer tentativa de fazê-las com minhas próprias forças é loucura e recompensado com a loucura. Por esta razão é impossível adaptar-me, como você sugere. Por mim próprio não posso seguir o caminho que desejo, de fato não posso nem desejá-lo, só posso ficar quieto, não posso desejar mais nada, nem quero mais nada.

É mais ou menos como se alguém, cada vez antes de dar um passeio, precisasse não somente de se lavar e pentear - só isso já é deveresa cansativo - mas ele também (desde que, cada vez, lhe falta o necessário para o passeio) tem que costurar sua roupa, fazer seus sapatos, manufaturar seu chapéu, lustrar sua bengala, e assim por diante. É claro que ele não pode fazer tudo isso muito bem, talvez se juntem na extensão de alguma ruas, mas quando ele chega a Graben, por exemplo, eles subitamente se separa e ele fica ali nu entre trapos e farrapos. E agora a tortura de voltar correndo para Altstadter Ring! E no fim ele provavelmente corre para uma multidão em capturar judeus na Eisengasse.

(Fragamento de carta de Franz Kafka à Milena)

26.12.06

Lembrança

categorias: Prosa

(One Nights Dream, Ghosts - Ralph L. Steeds)

Subia o morro empurrado por uma senhora gorda e cinza de olhar melancólico. Caminhava cada passo sem na verdade caminhar, caminhava offline. Praticava uma espécie de budismo moderno que quer afastar pensamentos, não por alguma crença recém-descoberta e reveladora do mundo, mas por uma fadiga que grita, ameaça e expulsa os problemas transeuntes, como uma criança que brinca de cabra-cega tateia o ar em busca de seus provocadores. Sentia a cabeça doendo demais, como se um alfinete cruzasse a nuca, amarrado em suas extremidades por uma bela e ornamentada fita azul com crianças minúsculas nela penduradas e balançando-se. Elas, contentes com os sonhos que não me deixo sonhar, que lanço e que caem desapressadamente, pulam sobre eles antes que atinjam o chão, saltam e muitíssimo perto do fim penduram-se orgulhosas à fita antes de cair. É assim que explicava a dor, que os sonhos largados, de forma oposta ao que imaginava, não alívio, causavam.
Assustado por um motoqueiro que lançava revistas, baixei a guarda e só percebi as consequências desta atitude irresponsável ao olhar pra baixo e ver crianças de joelho ralado à chorar. Apertei o botão de emergência - secretamente escondido abaixo do mamilo esquerdo -, mas não pude fechar as comportas a tempo. Os pensamentos, que haviam rapidamente escalado a bela fita azul - vil, de função agora revelada - já haviam tomado o primeiro nível e ameaçavam adentrar-se mais. Forçavam a porta com troncos feitos de datas de prova e ameaçavam atirar os extratos de banco. Surpreso e desarmado pelo ataque, tive ainda a atenção presa às crianças e quando ainda refletia sobre que atitude tomar, reprimir o ataque ou cuidar das vítimas destes pensamentos malévolos, fui surpreendido pelo fim de um encantamento perfeitamente planejado. As crianças tomavam forma de gnomos e, espetando meus pés com seus pequenos alfinetes, sorriam satisfeitos, agora sem ar de pureza, pelo sucesso de seu disfarce. Enquanto me desesperava pela terrível descoberta, fui informado por um mensageiro que o segundo nível havia sido tomado e que pouco restava a fazer. Tranquei-me em minha cabine e escolhi afundar com meu navio. Drama, drama, diziam meus novos comandantes. Sempre a mesma ladainha épica. Eu sabia que não haveria náufrago algum. Nada que não houvéssemos já feito antes. Quiçá, desta vez, matéria para se sonhar de noite.
Ansiosos como animais de zoológico, os pensamentos entravam em suas cabines e apertavam seus cintos. Aos poucos o gás verde que entrava iniciava seu efeito... Suas imagens começavam a brilhar e sua aparência ficava embaçada, como se estivessem transparentes. A luz tornou-se tão forte que a visão do que acontecido ficou impossível. A última impressão foi de um vago entrelaçamento destes pensamentos. Quando o processo terminou veio o silêncio. Como a TV de madrugada quando termina a programação, ou quando um monge entre em alpha, ou quando alguém conta uma piada ruim, ou quando alguém faz uma pergunta difícil. Silêncio grande que faz sumir o barulho da moto e de seu cavaleiro entregador de jornais. A luz baixava e, perdido, percebi que me encontrava num mundo branco de cinco dimensões. A primeira coisa que vi, e não entendi (visto que era um mundo de cinco dimensões), foi um homem negro de casaco negro e óculos estranho que disse:
- Alô! Muito tempo! - sua voz suava estranha. Alguma provável influência da dimensão extra. - De qualquer forma, eis o achado escrito:
"O silêncio que vem da caverna cala a todos. A cidade que andava agitada, dos homens de longos chapéus negros e das senhoras de véus e cruzes, cala seu insandecido gritar, assustada. Os monólogos a dois se calam. As carruagens que correm para não-lugar param. Os cachorros já esperavam e continuam sentandos ouvindo atentos ao grande silencio que ruge da caverna.
O leão que sai do escuro anda, rebolado de deusa egípcia esquecida, juba de glam rock... Olha tudo, vira os olhos e ri:
- Devem estar brincando.
Dá uma cuspida e volta para a caverna. O silêncio se cala e o barulho na cidade volta. Os cachorros bocejam e os homens voltam a vibrar".
Rodava tudo e vi-me num enfumaçado mundo, este com número correto de dimensões, conhecido. A rua continuava lá, talvez alguns graus deslocada, mas ela, sem dúvida a mesma rua que eu subia. Havia um vulto, algo do tamanho de um centauro causando barulhos que eu via ao invés de ouvir. Sentia fumaça que a cada barulho chacoalhava e criava pequenas fissura que deixavam escapar luz. A luz se enrolava e criava parábolas que, para minha surpresa, me capturavam. Encantado pelos movimentos, não esbocei reação enquanto tomavam meu corpo e tinham como ponto final meu rosto. Fui possuído pelas luzes e extasiado retomei o controle. Fim da rebelião.

O barulho de portão enferrujado que vinha dos freios da moto do entregador de revistas me lembrou anos atrás quando voltava do curso de inglês e entrava no quintal de casa pedalando minha bicicleta. Ao frear causava este barulho de portão enferrujado. Feitiçaria de algum deus brincalhão de pegar um som e joga-lo no futuro.

23.12.06

Atlas ou Uma tentativa de ilustração

categorias: Prosa
Atlas
(Atlas - Teodoru Badiu)

Ao meio de uma larga rua de cascalhos e terra, numa tarde, um jovem fatigado parou. A leve garoa alimentava a lascividade da lama que aliciava suas botas. Longe encontrava-se um leão. Porte majestoso, seu pêlo brilhava como ouro egípcio recém-descoberto, ao primeiro gole de Sol. Uma aura, talvez calor ou talvez nobreza, erguia-se do corpo leonino exalando vapor em espirais. A oeste, uma senhora de roupas largas carregava na mão direita um báculo, e na esquerda um ábaco, enquanto refletia contemplando o céu.
A lama borbulhante iniciou o movimento de deglutição das botas do rapaz que terminaria tendo couro cabeludo de sobremesa. Seria, no entanto, rala sobremesa, pois ralos eram seus cabelos. Uma fina penugem negra, apenas, dava abrigo aos pensamentos. Seus olhos, sombras fugidías num espelho, não mostravam orbe ou cílios ou esmeráldea pupila. Carregavam em si segredo e prometiam morte a qualquer que ousasse fixar os olhos em seu interior. Uma visão de relance, no entanto, aliviava e dava promessa de salvação.
De corpo sem proporção e incomensuravelmente belo, causaria estranhamento a ocasional observador, o desandro jovem. Tinha pernas reduzidas para o sustento do torso. A natureza oprimia e obrigava, já há décadas de outonos e primaveras, uma criança a carregar um adulto. Maior deformação era, no entanto, a estatura dos ombros. Parecia a cabeça querer escapar do tronco, como um gigante cinzento que pisasse com os pés, um sobre cada ombro do rapaz, e esticasse seu pescoço dia a dia. Dois palmos de osso e pele, ofídio, erguiam-se donde deviam tomar repouso.
Sobre a vertical duplicidade das costas repousava o disco. O que o gigante carrega contém em si um jovem de cabelos ralos que canta e grita e chora por sua mãe, como a queimar em eterno, enquanto carrega, temendo, miserável e desesperadamente, derrubar uma senhora de largos vestidos, um leão que a tudo observa e um gigante firmador do plano.
Se a ação do gigante em carregar o mundo é nobre, não se discute. A lama engole a peça única de beleza além da compreensão que é o rapaz.

15.12.06

Soneto de Canção

categorias: Poesia
Marc Chagall - Dance
(Marc Chagall - Dance)

Quando se está em cena e você imerge
tanto nas falas que se perde dentro
do personagem, toma ações e as rege
sofrendo por outros dor e tormento.

Pasmo, desperta ao solo de guitarra
felizmente improvisado na orquestra:
Tango dançado a dedos e à fanfarra
tocado movem fios e as mãos adestra.

Desencantado e suando alívio, estala
os dedos e continua a rodar
a manivela do áureo realejo.

Tudo a Bela Adormecida a ensaiar,
o mundo gira e todos, numa sala,
se encantam ante o musical marejo.

11.12.06

Epístola Kafkiana

categorias: Outros autores

(Albrecht Dürer - Adam und Eve)

E não exija sinceridade de mim, Milena. Ninguém pode exigir isso de mim mais do que eu mesmo e, no entanto, muitas coisas me iludem, estou certo, talvez tudo me iluda. Mas encorajamento nesta caçada não me encoraja, pelo contrário, posso então não dar mais nenhum passo, subitamente tudo se transforma em mentira e o caçado sufoca o caçador. Estou numa estrada tão perigosa, Milena. Você está em pé firmemente ao lado de uma árvore, jovem, bonita, os olhos subjugando com sua radiância o mundo sofredor. Estamos brincando, eu passando de uma árvore para outra, você me chamando, apontanto os perigos, tentando me inspirar coragem, fica horrorizada quando dou um passo vascilante, lembrando-me da gravidade do jogo - não posso fazer isso, caio, já estou no chão. Não posso ouvir simultaneamente a voz terrível dentro de mim e ao mesmo tempo ouvir você, mas posso ouvir a primeira e confiá-la a você, a você e a mais ninguém no mundo.

(Fragmento das correspondências de Franz Kafka à Milena).